Como desenvolver o gosto pela leitura?

Como desenvolver o gosto pela leitura?

Opinião de um leitor e contador de histórias

por Bruno Batista

São muitos os que me abordam com uma série de questões ligadas ao desenvolvimento de hábitos de leitura nas crianças e jovens. Como narrador e formador tenho refletido muito sobre o assunto e resolvi, de uma forma despojada, apresentar algumas das minhas respostas.

O que significa saber ler?

Quando pensamos em leitura, pensa-se na leitura formal de textos. No entanto, a palavra “leitura” e o ato de “ler” vão muito além da descodificação das palavras e frases. Afinal, existem vários tipos de leitura: leitura das expressões faciais, leitura de comportamentos, de imagens, de mapas, de tarot, das mãos, dos astros, de música, etc. Desde que nascemos começamos a fazer leituras do mundo à nossa volta. Algumas leituras, apesar de mais ou menos inatas, também deveriam ser desenvolvidas e acompanhar a leitura dita mais formal das palavras. Pois só assim poderemos transformar-nos em leitores.

Com que idade devo começar a estimular a leitura?

Sugiro começar logo na gestação. Cantar para o feto, falar, brincar com a voz, criando vocalizos, colocar música ou outros sons, são ótimos para a estimulação do feto, uma vez que a audição desenvolve-se entre as 12 e as 16 semanas.

Depois de nascer, a criança continua a explorar o mundo à sua volta. Estimular os vários sentidos (com conta, peso e medida, afinal o cérebro ainda está em formação) é muito importante. Usar cores, sons, formas, texturas, sabores e deixar a criança explorar é o melhor a fazer, acompanhando a criança e nomeando os vários objetos à sua volta. Associar o objeto ao som da palavra que o define é meio caminho andado para a fala.

Não havendo uma idade para começar a estimular a leitura, os livros devem estar presentes em casa desde a mais tenra idade. Livros de plástico para brincar na banheira, livros simples de cartão grosso, com sons, imagens e texturas. Mostrar o livro à criança, apontando para as imagens e nomeando as palavras é uma boa estratégia. Mas também tem de deixar a criança explorar à sua maneira, sendo certo que alguns livros ficarão em muito mau estado. Faz parte.

Quando devo começar a ler para a criança?

Poderá começar por volta dos 2 anos de idade ou até mais cedo. Mesmo que a criança não compreenda o que está a dizer, a forma como o diz, o som da sua voz, a segurança transmitida e o momento criado serão muito mais importantes do que a história que está a contar. A criação destes momentos deverão ser espontâneos e não forçados. Pode começar por canções de embalar nos primeiros tempos. Mas vai ver que a rotina de ler para adormecer rapidamente se irá instalar lá em casa.

Quando a criança começar a entender o conteúdo das histórias, comece a alternar com histórias narradas e a leitura de livros. Se não souber histórias, invente. Conte memórias da sua infância. A ausência de imagem irá estimular a criação de imagens mentais na criança, essenciais para a estimulação da atenção, da imaginação e da criatividade.

Como levar uma criança a ler sozinha?

Numa casa onde ninguém lê, dificilmente terá uma criança leitora. Criar momentos de leitura em casa será um passo importante. Comece por si!

Leia na varanda, no sofá, na praia, na piscina, ande sempre com livros atrás, frequente bibliotecas e livrarias com as suas crianças. Comece a mostrar à criança as aplicações práticas da leitura. Muito tempo à espera no pediatra? Um livro irá fazer o tempo passar mais depressa; Uma viagem longa? Um livro ajudará a passar; Animal de estimação novo em casa? Ler para saber mais será necessário; Bolo de Aniversário caseiro? Pesquisar em família  livros de culinária será perfeito, mesmo que termine a fazer o mesmo bolo de sempre.

E não se esqueça, mesmo que uma criança não saiba ler bem, poderá sempre explorar as outras linguagens presentes nos livros. Explorar livros que são uma espécie de jogo ou contar a história através das imagens são excelentes exercícios. Aliás, criar jogos a partir da leitura de livros será outra atividade importante para cativar as crianças para a leitura.

Exercício:

a)Cada elemento da família escolhe um livro. Depois um dos elementos diz uma palavra  e todos terão de encontrar essa palavra no seu livro.

b)Caminhar pela cidade e levar a criança a ler o mundo à sua volta também é um bom exercício.

Se já sabe ler, a criança deve ler sozinha?

É o pior erro que se comete quando a criança adquire a capacidade de ler. Não é por saber fazer uma leitura funcional que a criança vai conseguir ter prazer em ler. As primeiras leituras ainda são processos difíceis para a criança que está a mobilizar uma série de ferramentas que ainda não domina. Uma leitura prazerosa é aquela que nos leva a viajar para um mundo paralelo, criando como que um filme na nossa cabeça. Ora uma criança que está a começar a perceber o conteúdo do que lê, fica-se muitas vezes pela descodificação das palavras e o seu significado, muito ligadas à parte lógica do cérebro. Ora, o prazer da leitura só acontece quando os dois hemisférios cerebrais se unem, ligando lógica e compreensão às memórias, aos sentimentos e às imagens mentais.

É claro que uma criança que foi estimulada com a leitura em voz alta e a narração oral irá mais facilmente tirar prazer da leitura por si própria. Assim, sugiro que continue a ler para a criança, continue a contar histórias. Lembre-se que ler para o outro é também um ato de amor que mais tarde a sua criança irá recordar com saudade.

Que livros escolher para estimular a leitura?

Para responder a esta questão, peço-lhe que coloque de lado a sua visão adulta, educativa, preconceituosa e politicamente correta. Se queremos uma criança leitora, não podemos condicionar a sua leitura apenas à nossa visão do mundo. Há que perceber os seus gostos e o que a prende aos livros e começar a explorar a partir daí. A criança gosta de um livro que aos seus olhos é básico e não ensina nada? Então é esse que ela dele ler. Mesmo que no final a criança reconheça que não foi a sua melhor escolha. É preciso deixar a criança explorar e perceber ela própria os seus gostos, o que a fascina e desperta a vontade de ler.

Quando a criança descobre um livro que gosta, vai pedir para você o ler todas as noites, ou vai ler e reler sozinha, ou vai querer toda a coleção. Siga com entusiasmo as suas escolhas, peça para ela lhe contar um pouco do que leu em vez de fazer um esgar por ser uma leitura inferior que você jamais escolheria.

Se a criança não sabe o que escolher, ajude-a a descobrir, sugerindo temas ou dando a conhecer alguns títulos, leia um capítulo com ela, por exemplo, mas deixe sempre a decisão final de ler o livro nas mãos da criança. Se considera que adquirir certos livros irão manchar a sua estante ou serão dinheiro lançado à rua, visite com a criança uma biblioteca e requisite esses livros. Se mesmo assim a criança quiser ter o livro, faça com que a criança poupe algum dinheiro e que seja ela a investir na sua compra. Acredite que esse livro terá muito mais valor.

Que livros escolher de acordo com cada idade?

Quando oiço alguém numa livraria dizer “Queria um livro para um rapaz de 7 anos” ou “isso não é para a tua idade” dá-me arrepios. Como se todos os rapazes de 7 anos gostassem do mesmo tipo de livros. Ou existisse uma idade para ler determinado livro e, passada essa idade, fosse “proibido de o ler”. Nada mais errado. Se a criança quer um livro mais infantil, pelo qual se encantou por causa das magníficas ilustrações, compreenda o porquê dessa escolha.

Cada leitor é um mundo e nenhum é igual. Os livros não têm idade, género nem raça. São livros, para todos. O rapaz gosta de um livro de unicórnios. Ótimo. A rapariga gosta de um livro de jogos de computador? Ótimo. Cada criança, consoante as suas vivências, as suas leituras de mundo, as suas relações, personalidade, gostos, etc, terão diferentes níveis e estilos de leitura. Conhecendo a criança, irá perceber o que ela gostará de ler. Por vezes, as leituras também poderão ser sugeridas consoante as vivências. A criança está a passar pelo divórcio dos progenitores? Talvez uma história em que a protagonista viva igual situação a possa ajudar e interessar, por exemplo. Mas lembre-se, não queira ser pedagógico com a sua criança. Ela já tem pedagogia que chegue na escola. Sugira, encaminhe, e depois deixe a criança descobrir por si. Ajude-a a desbravar os mistérios do mundo e da vida através dos livros.

O conselho que dou é que esqueça as modas editoriais, os planos nacionais, os autores… concentre-se nos livros, nas histórias, nos ensinamentos, nas aventuras. Explore e perca-se numa livraria ou numa biblioteca com a sua criança e descubram novos mundos, novos autores, algo só vosso. Isto já será fazer algo, acredite, pois a sua criança irá naturalmente sofrer as influências das modas editoriais, planos nacionais etc, pelos colegas, amigos e pelo sistema escolar.

Para terminar… uma sugestão

Crie um caderno de registo das leituras da sua criança, onde ela também possa escrever mais tarde sobre os livros que leu. Será um registo interessante para ir acompanhando ao longo da vida. Pois afinal, somos um pouco daquilo que lemos.

Bruno Batista é Animador Sociocultural, Ator, Formador certificado e Contador de histórias. Licenciado em Animação Cultural e Educação Comunitária, cedo passou pelo associativismo onde foi dirigente e se iniciou no teatro. Participou em várias produções teatrais, passou por várias companhias e recentemente tem realizado trabalhos na TV e publicidade.

É autor de vários projetos de Animação e de Narração contando perto de 1000 sessões realizadas por todo o país. É também embaixador da Livros Horizonte.

 

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