Reis procuram Príncipes ou Como fazer os mais pequenos entenderem o que é a adopção

Reis procuram Príncipes ou Como fazer os mais pequenos entenderem o que é a adopção

Explicar a adopção aos mais novos pode ser uma tarefa complexa. Fazer com que entendam de uma forma clara mas suave que podemos ser pais sem ter carregado os filhos no ventre, é muitas vezes um desafio, e há que encontrar formas originais de o fazer. Foi essa necessidade que Ana Kotowicz, encontrou e que a levou a procurar uma alternativa que lhe “enchesse as medidas”.

No dia 1 de Junho, celebrando o Dia da Criança, chegou às livrarias a nova aposta da Livros Horizonte, Reis Procuram Príncipes, o resultado do trabalho de Ana Kotowicz nesta busca pela melhor abordagem para explicar um tema delicado às crianças. Um livro infantil que através de um conto explica aos mais pequenos o caminho da adopção, com as ilustrações mágicas de Rita Correia, onde as imagens e a história parecem ganhar vida e saltar do papel. Numa linguagem sensível e adaptada às crianças, a autora dá a descobrir uma forma diferente de construir uma família.

Por me identificar tanto com o tema e por achar maravilhoso que seja abordado de uma forma tão doce, lancei o desafio à Ana, que amavelmente me respondeu a algumas perguntas. Aqui fica a minha mini entrevista com Ana Kotowicz, jornalista e futura mãe de duas crianças! Obrigada Ana! E as maiores felicidades do mundo!
Escreveu sobre este tema de uma forma simples e adaptada à capacidade de entendimento das crianças. O que a motivou a explicar–lhes o que é a adopção?
Antes de se tornar um livro, esta história era apenas para ser lida aos meus filhos quando eles chegassem. Estou num processo de adopção – na fase de espera, a avaliação já foi concluída – e durante a última formação que fiz na Santa Casa explicam-nos que as crianças devem saber desde sempre que foram adoptadas.
Comecei a pensar como iria introduzir o tema quando eles chegassem (eu e o meu marido candidatamo-nos a irmãos). Imaginei brincadeiras onde, por exemplo, um elefante pudesse ter um filho girafa para introduzir a questão pais biológicos versus pais adoptivos.
No meio dessas ideias, a história de um rei e de uma rainha que querem ter filhos mas em que a gravidez não acontece começou a desenhar-se na minha cabeça. E um dia sentei-me à frente do computador e comecei a escrevê-la. Mais tarde, surgiu o convite da Livros Horizonte para transformar esta história em livro e assim aconteceu.
Portanto, a minha motivação era muito pessoal. O livro que eu queria ler aos meus filhos para lhes explicar a sua própria história não estava nas livrarias. Então escrevi-o.
Sente que a sua mensagem vai chegar aos destinatários e que estamos hoje a criar crianças que serão adultos de mente mais aberta e mais predispostos a olhar para adopção de igual para igual em relação à concepção biológica de um filho?
Espero sinceramente que sim. Não é preciso andar muitos anos para trás para chegarmos a um tempo em que a adopção era tabu. Não se falava, não se explicava e muitas crianças não sabiam a sua verdadeira história ou descobriam-na demasiado tarde.
Este livro pode ser lido numa sala de aulas, por exemplo, onde até haja uma criança que tenha esta história de vida. É uma maneira de explicar a sua realidade aos colegas. Ou numa família onde haja um tio, um primo que seja adoptado. Quanto mais natural for a adopção para os nossos miúdos de hoje mais bem aceite será pelos adultos de amanhã.
O caminho da adopção, pelo menos em Portugal, é um caminho tortuoso. De um modo geral, e sem querer que exponha a sua vida, considera ser um caminho difícil mas que vale a pena percorrer?
Desde que entregamos a candidatura até sabermos se estamos aptos ou não a integrar a lista de espera passam-se seis meses. É muito rápido. O processo de avaliação tem prazos legais para serem cumpridos. Na verdade, penso que durante esses seis meses devíamos passar mais tempo com a dupla que nos avalia – uma assistente social e uma psicóloga.
Com cinco ou seis entrevistas – e já ouvi histórias de casais que fizeram menos – é difícil fazer uma avaliação rigorosa e perceber se aquelas pessoas estão prontas para receber uma criança que traz com ela muitas especificidades e muitos desafios.
Não nos podemos esquecer que as crianças institucionalizadas trazem com elas um passado, muitas vezes carregado de traumas, de que os pais não fizeram parte mas que não pode ser esquecido. E sempre que oiço falar de crianças devolvidas penso que alguma coisa deve ter corrido mal durante o período de avaliação.
Depois disso, penso que o tempo de espera até que o nosso filho chegue a casa é o mais desesperante. Porque nós queremos que ele chegue ontem e esperamos anos para conhecê-lo. Essa espera também tem tudo a ver com o perfil da criança que traçamos. E o que os futuros pais querem raramente casa com as crianças que estão à espera de ser adoptadas. A maioria quer filhos até dois ou três anos, as crianças nas instituições têm mais de seis. Mas no fim acho que cada segundo de espera vale a pena.
Recentemente assisti a uma peça de teatro em que o tema da adopção é abordado, chamando à criança em questão “o adoptado” em contraposição com um outro filho da família, biológico, sempre designado de “o filho”. A mim, enquanto irmã mais velha numa família de 4 em que o mais novo de nós também é adoptado, fez-me impressão esta distinção. Qual a sua opinião?
Isso faz-me lembrar os tempos de antigamente em que um filho fora do casamento era chamado de bastardo. Felizmente a sociedade evoluiu e já ninguém diz uma coisa dessas. Um dia não haverá distinção entre filhos, tenham nascido no nosso ventre ou não. E talvez quem usa a expressão “o adoptado” não tenha a noção da carga negativa que está a pôr na palavra. Também nos cabe a nós chamar a atenção das pessoas para os erros que cometem e que tantas vezes magoam os sentimentos de alguém.
Aqui há dias, uma mãe dizia-me que a pior coisa que lhe podiam perguntar quando está com as três filhas é: “São as tuas miúda? Qual delas é a adoptada?”
Acredita que o amor de mãe é incondicional, independentemente de gerar o filho no seu ventre ou de o adoptar?
Filho é filho. E mãe é amor. Tudo o resto são pormenores.
Qual considera ser a maior dificuldade com que os pais adoptivos se podem deparar?
A integração. A chegada a casa vai ser sempre difícil (e maravilhosa ao mesmo tempo) e os afectos demoram tempo a criar. Vai sempre haver um dia em que vai ouvir uma coisa do género “tu não és minha mãe”, as crianças vão testar os pais ao máximo e a síndrome de abandono vai estar sempre presente.
Mas ao final do dia, um sorriso, um abraço, um beijinho compensa todas as dificuldades.
[Nesta foto, Ana – à direita, e Rita Correia – à esquerda, na Feira do Livro de Lisboa]

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