Crónica de José-Augusto França sobre eléctrico 28 reeditada

Crónica de José-Augusto França sobre eléctrico 28 reeditada

Mesmo com longas filas na primeira paragem, apanhar o eléctrico 28 em Lisboa é obrigatório. Para um percurso mais informado, há uma nova edição de 28 Crónica de um Percurso, de José-Augusto França.

Está em todo o lado. Nos postais. Em miniatura nas lojas. Na rota dos turistas. Na memória dos portugueses. É o “carro dos Prazeres, número 28”, na voz da fadista Raquel Tavares. A média de passageiros ficou nos 4,6 milhões nos últimos quatro anos, de acordo com a Carris. Do Martim Moniz aos Prazeres, o eléctrico 28 passa pelos séculos de história da cidade. 28 Crónica de um Percurso é agora reeditado pela Livros Horizonte.

Quando ia para o liceu, o transporte do historiador José-Augusto França era o eléctrico 28. Partia do Rossio, subia à Baixa, passava pela Sé e chegava a São Vicente de Fora. O seu destino era o Liceu Gil Vicente. A descoberta foi por acaso. Estava no Jardim da Estrela e avisou alguém que ia apanhar um táxi. Disseram-lhe que não era necessário. Mesmo em frente, havia uma paragem de um carro eléctrico. “Foi assim que descobri que havia uma carreira extraordinária em Lisboa.”

Desses tempos que andava no 28 relembra uma das visões mais exclusivas que teve de Lisboa. No Arco do Bandeira, havia uma janela a que nunca teve acesso. Um dia, convidaram-no para uma palestra de uma sociedade instalada no prédio com essa vista. Só aceitava participar se lhe abrissem a janela para chegar à balaustrada e olhar o Rossio daquele sítio. “É uma vista rara. Poucas pessoas podem ter conhecido e é uma visão do que foi a Lisboa pombalina na altura”, esclarece o historiador especialista na cidade pós-terramoto de 1755.

O interesse num percurso que passa por umas “dez igrejas, oito conventos que foram, meia dúzia de prédios de destaque, seis jardins, uma dezena e meia de estátuas, dez teatros e cinema de que só restam dois”, fez com que escrevesse 28 Crónica de um Percurso, publicada em 1998. ” Na introdução do livro afirma não ter pretensões de historiador, mas que “saboreia” os recantos de Lisboa.

Por isso, durante dois meses, fez o percurso. Sempre a entrar e a sair para perceber o que cada paragem tinha para oferecer. Consigo esteve o fotógrafo Pedro Soares.

Ao longo do livro há palavras dos monumentos e ruas que ainda existem, mas também  de edifícios demolidos. O livro parte do Largo de Martim Moniz, “neste espaço muito foi demolido”, desde a Rua de S. Vicente ao arco passadiço com dois pisos de janelas por cima.

Anda o 28 e a história passa por onde foi o Salão Lisboa, “o cinema de cowboyadas da Mouraria”, que passou para um armazém de revenda de roupas. Na Graça, havia palacetes “agora degradados”. Desce pela rua da Voz do Operário, que já se chamou rua da Infância. E segue-se até ao Campo de Santa Clara, onde há “grandes palácios nobres de setecentos, ainda existentes em excelente estado de conservação”.

Em S. Tomé, há um encontro entre ruas e as suas gentes e na da Rua de S. Vicente vê-se um pátio que foi nobre e é agora da Academia Recreativa dos Leais Amigos. A carreira passa pelas Portas do Sol, onde “Lisboa romana nasceu”. Segue pela Sé e, mais tarde, vai encontrar a Baixa.Já se vê o Chiado e logo a seguir pára no Camões, um largo “confuso de circulação”. Da Estrela até aos Prazeres é um instante. “O 28 liga várias e opostas coisas e fenómenos, como se alinhavassem muitos séculos de cidade!”, conclui o historiador nas últimas páginas do livro.

A última vez que andou na carreira foi há um mês e reparou nos turistas. “O eléctrico é turístico e útil para quem quiser vir do Chiado para a Estrela”, assume. Mas também notou que há poucos assentos para tanta gente. “Os turistas vão sempre a balancear, sempre com muitos protestos.”

O eléctrico 28 passa pelos séculos que a cidade já viveu. Questionado sobre a transformação de Lisboa, José-Augusto França diz: “Todas as cidades vivem e têm sofrido transformações. Dos 80 anos de prática que tenho, as mudanças foram sempre em relação à vivência da cidade, nomeadamente no centro histórico. A Lisboa tradicional das sete colinas, como a Baixa e com o encanto do rio Tejo, permanece.”

Um percurso-museu pela cidade

Mas nem sempre é fácil apanhar o 28. No Martim Moniz as filas são intermináveis. Às 10h atingem o maior pico, diz um motorista de eléctrico, que preferiu não ser identificado. Depois vai sempre a abarrotar com turistas. “Não há condições, vai sempre cheio e tempo de espera é muito longo.” De vez em quando, lá se vai apanhando um português. O condutor diz que muitos moradores de Lisboa até já andam “revoltados” por não se conseguirem deslocar no eléctrico.

A média diária de passageiros do 28 é de 11.500, sendo o segundo eléctrico em Lisboa com maior circulação. Apenas é ultrapassado pela carreira 15, que faz o percurso da Praça da Figueira a Algés, com 13 000 viajantes por dia. O PÚBLICO apenas teve acesso aos números da evolução anual dos últimos cinco anos, que indicam uma descida. Em 2012, registaram-se 4,8 milhões de passageiros; número que baixou para  4,7 milhões em 2013, 4,5 milhões no ano seguinte e 4,4 milhões em 2015. Até Julho deste ano, já passaram pela carreira 2,5 milhões de passageiros.

Mesmo com o eléctrico cheio de turistas, o lisboeta Raul Xisco não desiste. Entra na paragem da Graça e vai ter com uns amigos ao Bairro Alto. Tem 80 anos e anda na carreira há mais de 70. “Já estive à espera 1h30”. Muitas vezes, o 28 não pára e tem sempre de aguardar pelo próximo. “Agora é só para turistas”. Mas não diz isto com indignação. Sabe bem que aquele é um percurso-museu que mostra miradouros e sítios históricos da cidade. Também ele gosta de os ver. Além disso, os turistas são simpáticos e acabam por ajudá-lo a sentar-se.

Bem ao lado de Raul Xisco, está Raquel Pujana. Entrou na paragem do Martim Moniz e vai seguir até aos Prazeres. É espanhola e veio passar quatro dias de férias a Portugal. Tinha de andar no eléctrico 28. Nem sabe quem lhe falou neste circuito pela primeira vez, mas era algo que não podia perder nesta viagem. “Parece uma montanha-russa”, diz sobre a viagem pelas sete colinas. “Agora tenho de voltar a Lisboa para ver o percurso ao pormenor”.

 

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