“A Marante”: a jornalista que os políticos temiam

“A Marante”: a jornalista que os políticos temiam

Maria João Martins falou com familiares, amigos e colegas de Margarida Marante e escreveu um livro onde traça o percurso de uma das figuras que fizeram história na TV nacional

O livro é “a reconstituição duma vida de mulher por outra mulher. Um notável percurso de jornalista contado por outra jornalista”, escreve Maria João Martins, autora da biografia de Margarida Marante, no prefácio da obra que tem como título o nome da jornalista falecida em 2012, ontem apresentada em Lisboa.

Ao longo de 12 capítulos e 117 páginas, a autora conta a história da jornalista a quem os entrevistados – que a temiam e ao mesmo tempo a admiravam – chamavam “a Marante”. Conhecida por um estilo incisivo, muitas vezes considerado arrogante, as suas entrevistas fizeram história na televisão, principalmente na SIC, onde entrou com a equipa fundadora do canal. “[Ela] olhava a câmara olhos nos olhos com uma naturalidade arrepiante”, escreve Maria João Martins.

Margarida Marante recorda o início da carreira da jornalista, convidada aos 19 anos por Daniel Proença de Carvalho, que acabou por se tornar um dos seus melhores amigos, para conduzir entrevistas políticas. “Fazia falta um retrato da vida de Margarida Marante, que através da sua profissão soube conquistar o respeito até da classe política”, recordou ontem o então presidente do conselho de administração da RTP, a quem coube a tarefa de apresentar o livro.

Entre as pessoas que foram ouvidas para a biografia estão o primeiro marido da jornalista, Henrique Granadeiro, e duas dos três filhos do casal – Catarina e Joana. O filho não prestou depoimentos para o livro mas não faltou à apresentação. Afirmou que gosta da obra “na totalidade” e reagiu com naturalidade “à parte em que é abordada a questão dos vícios” da mãe. “Não tenho vergonha nenhuma do percurso de vida dela. Assumo com muito orgulho as partes boas e as partes más”, frisou.

Ainda na RTP, Margarida Marante entrevistou personalidades como Mário Soares – que considerava um talismã e que era um dos primeiros que convidava quando estreava um novo programa – e Álvaro Cunhal, que dizia à jornalista que a tinha visto “crescer”. Nessa época, a sua única concorrente era Maria Elisa. O livro apresenta-as como rivais, mas acaba por revelar que as duas acabaram por se unir na altura do processo de despedimento de que foram alvo, em 1990, por parte da RTP.

Miguel Sousa Tavares, ao lado de quem conduziu programas inovadores em Portugal como Crossfire ou Hora da Verdade, ambos da SIC, adianta, na mesma obra, que Marante dizia sempre que “nada se improvisava em televisão”. E Manuel Tomás, o realizador que a acompanhou na RTP e na SIC, descreveu “o modo obsessivo como preparava entrevistas e debates”. “Assim que acabava uma fechava-se em casa e preparava a próxima.”

Também Henrique Granadeiro recorda que a ex-mulher “trabalhava até ao esgotamento”. “Lia muito, consultava tudo e todos e, nesses momentos, ficava muito tensa, totalmente absorvida pelo tema.”

São ainda lembrados no livro os grandes momentos do seu trajeto profissional, como a entrevista aos dois candidatos presidenciais Freitas do Amaral e Mário Soares, em 1986. Margarida Marante tinha 26 anos quando conduziu a conversa e considerava-a o melhor momento da sua carreira.

Entrevistou ainda figuras como Alberto João Jardim, Marcelo Rebelo de Sousa, Paulo Portas – no programa onde fez as declarações que ditaram o fim da aliança de então entre PSD e CDS-PP -, e Carlos Carvalhas, José María Aznar, Maria Barroso ou António Guterres, entre outros.

A vida pessoal da jornalista, como o casamento com Granadeiro, não é deixada de lado. Um romance que se iniciou por causa de um programa de televisão: o gestor foi um dos convidados para um debate sobre agricultura e, segundo o livro, apaixonaram-se durante a emissão. “Seduzia-me aquele atrevimento e a frontalidade com que conduzia debates muito difíceis. A Margarida significa um enorme virar de página no modo como a televisão portuguesa abordava a política nacional”, disse Granadeiro a Maria João Martins.

Com a entrada, em 1992, para a SIC, a jornalista envolveu-se completamente no projeto, conta ainda o ex-marido: “O modo como ela se entregou sem meias-medidas, a meu ver excessivamente”. O livro refere o fim do seu casamento, em 1997, e o início do romance com Emídio Rangel, então “todo-poderoso diretor de programas da SIC” e que é descrito como “uma pessoa excessiva que não controlava um lado negro muito acentuado”, na opinião de Marina Cruz, amiga de Margarida Marante, um homem capaz “do melhor e do pior”.

Com um extenso percurso na counicação social, a jornalista dirigiu a revista Elle, trabalhou na rádio TSF e colaborou com o semanário Expresso. Margarida Marante saiu da estação de Carnaxide em 2001, em solidariedade com Emídio Rangel. Morreu aos 53 anos, “longe dos holofotes da fama” e sem ter regressado aos ecrãs de televisão.

Com Ivo Justino

Margarida Marante
Maria João Martins
Livros Horizonte
PVP: 15,90 euros (Fnac)

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