Reis Procuram Príncipes. A vida real num conto de fadas

Reis Procuram Príncipes. A vida real num conto de fadas

Um rei e uma rainha que não conseguem ter filhos, fadas madrinhas que não têm varinhas de condão e uma montanha onde vivem as Crianças Sós. A jornalista Ana Kotowicz estreia-se nos livros para crianças, universo que há anos lhe é muito familiar, com uma história sobre um desses temas a que chamam difíceis, a adoção

“A gravidez de uma girafa dura 60 semanas, a minha já vai em 75”, começava o texto “A minha imensa gravidez invisível”, publicado no blogue Amãezónia – ter filhos é uma vida selvagem, que depois explicava: “A questão é que vou adotar. A decisão demorou algum tempo a tomar, a burocracia levou mais outro pedaço, e depois de ter sido avaliada durante seis meses disseram-me que estava apta para todo o serviço. Hip hip hurra. Naquele dia zero – o tal em que me disseram que estava tudo ok e que era só uma questão de esperar pela minha vez – a minha vida mudou. É o equivalente ao dia em que uma grávida faz xixi para um pauzinho e o teste dá positivo.” Entretanto as semanas continuam a avançar, são agora mais de 80, contas de cabeça da jornalista Ana Kotowicz, que enquanto espera se estreou nos livros para crianças com este “Reis Procuram Príncipes – Uma história de adoção”.

Universo nada estranho para alguém que há anos que escreve sobre livros infantis. “É um universo que sempre me fascinou, aliás, muito antes disto e até de ter começado a escrever sobre livros infantis, já tinha uma coleção em casa porque às vezes passava numa livraria, ficava encantada e comprava. Para mim, não era para mais ninguém”, conta a autora, fundadora do i e atualmente jornalista no Dinheiro Vivo, que sempre teve vontade de um dia escrever também ela livros para crianças. “Foi uma coisa que sempre me esteve na cabeça e ao longo dos anos sempre escrevi histórias pequeninas para filhos de amigas.”

A história de “Reis Procuram Príncipes”, que foi lançado este mês, começou em dezembro passado, numa formação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para pais que vão adotar, em que “insistem muito na importância de eles saberem desde sempre que são adotados, de não estares à espera que sejam adolescentes para fazeres a revelação”. Foi então que começou a pensar no assunto e no sofá, computador ao colo, começou a escrever esta história sem imaginar ainda que viria a ser um livro. Era uma história para lhes ler, aos seus filhos quando eles chegassem. “Era só isto”, diz, “mas de repente a Livros Horizonte fez-me esta proposta de transformar esta história que eu tinha escrito para os meus filhos em livro. Foi bastante cortada e editada porque deixou de ser uma coisa que eu iria ler aos meus filhos, até a linguagem é diferente. A versão inicial era muito maior, o rei e a rainha continuavam a adotar até aos sete filhos, a história nunca mais acabava”, sorri.

Fadas sem condão Sete filhos porque são sete as cores do arco-íris, mas que no livro são apenas dois, o Zezé e a Mia, numa história com um final tão feliz como os dos contos de fadas mas em que o percurso não é fácil, como na vida real: um rei e uma rainha que não conseguem ter filhos e fadas madrinhas que se têm varinhas de condão não as usam para resolver problemas. Vão antes à Montanha das Crianças sós, lugar onde vivem todas as crianças sem pais, procurar filhos para os pais que não os conseguem ter. E o amor que não é à primeira vista, que se constrói.

A realidade é dura mas aqui parece um bocadinho menos. Como contar a uma criança que foi adotada? “Os livros acabam por ser uma muleta”, concorda Ana Kotowicz. “Há pais que têm facilidade em explicar tudo e mais alguma coisa aos filhos, outros não e um livro pode ser uma boa maneira de introduzir uma série de coisas que não sabes muito bem como fazer, até porque já estão numa linguagem fácil para poderes discuti-los.”

E nos últimos anos têm vindo a ser publicados cada vez mais livros infantis sobre os temas ditos difíceis, como a adoção e os vários tipos de família, a crise, o desemprego. “Quando eu era miúda, quando lia livros infantis porque tinha idade para isso, o que encontrávamos era o Capuchinho Vermelho, a Carochinha, eram histórias muito bonitinhas e cor de rosa.” Moralizantes também. “Mas depois havia outro lado de histórias infantis super antigas como os contos dos Irmãos Grimm que eram coisas absolutamente horríveis, em que os maus da fita acabavam dentro de um barril com pregos.”

Hansel e Gretel, o exemplo mais clássico, são abandonados na floresta pelos próprios pais. “Houve aqui um universo negro que depois passou por um politicamente correto em que as histórias ficaram todas brancas e nada de mau podia acontecer nas histórias, já não se abria a barriga do Lobo Mau para tirar a avó, o Lobo Mau já não comia a avó… Se foi bom ou mau não faço ideia, se calhar só daqui a uns anos é que saberemos, mas em contrapartida houve uma série de temas difíceis que começaram a entrar nos livros infantis.” Sobre a gravidez, a chegada de um irmão mais novo, a adoção, as famílias monoparentais ou arco-íris. “Em 2008, começaram a aparecer livros em que se tentava explicar às crianças a crise, o desemprego, temas que há uns anos nem pensavas que elas tinham que perceber, simplesmente ignoravas. Há uma série de universos que estão finalmente a ser explicados às crianças porque como sociedade estamos finalmente a começar a perceber que não ganhamos nada com esconder-lhes uma série de coisas. E que se calhar quanto mais souberem quando são pequenas melhores adultos se tornam, com menos preconceitos.”

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