Direita cresce e esquerda liberta-se do “papão” comunista

Direita cresce e esquerda liberta-se do “papão” comunista

Luís Reto e Jorge de Sá lançam obra sobre “consensos, divergências e antagonismos” entre esquerda e direita. Prefácio e apresentação de Santana Lopes e António Vitorino

São duas das conclusões do livro Esquerda e Direita em Portugal – Consensos, Divergências e Antagonismos: a esquerda – ou os eleitores que se dizem de esquerda – reinventou-se e já não vive com o “fantasma” do comunismo na cabeça. E a direita – ou os que se afirmam como integrantes dela – continua embaraçada quando é chamada a assumir os seus valores tradicionais.

A obra, da autoria de Luís Reto e Jorge de Sá – que será lançada depois de amanhã, com apresentação de António Vitorino e Pedro Santana Lopes -, assenta numa comparação entre dois inquéritos: um de 1999 conduzido pelo Centro de Sondagens da SIC e outro de 2013 replicado pela empresa Aximage, sobre o posicionamento político dos portugueses e deixa a nu algumas mudanças.

Desde logo, desfaz o mito de que tanto a nível nacional como europeu os eleitores tenham dificuldades em identificar o espaço em que se enquadram, isto é, a sua identidade política, até porque o conjunto de valores e convicções atribuídos a cada um dos polos não se alterou muito.

Os dois professores universitários – Luís Reto é reitor do ISCTE-IUL e Jorge de Sá dá aulas no ISCSP – recorram a um termo em voga na política nacional – os consensos – para notar que entre as muitas variáveis analisadas (entre grandes grupos como igualdade, liberdade, autoridade, religião, família ou ambiente) só duas geram uma aproximação entre esquerda e direita: a fixação pelo governo de um salário mínimo e de um salário máximo a nível nacional e que a inserção das mulheres no mercado laboral não belisca a educação das crianças.

Mas o entendimento da dicotomia esquerda-direita está longe de ser universal. E é cada vez mais subjetivo. Basta ver que, como escrevem os autores, de 1999 para 2013 “a ideia de comunismo associada à esquerda perde[u] força”, em especial na própria esquerda, onde temas como a igualdade e a justiça social “ganham muito mais peso”, quer “na maneira como se vê a si própria” como nas críticas que tece à direita. E fazem emergir novas esquerdas. “Menos enquadradas ideologicamente”, explica Luís Reto ao DN, acrescentando que existe hoje uma “esquerda mais libertária e de protesto do que uma propriamente marxista tradicional”.

A vítima? O PS, responde. “Aguentou-se bastante bem, mas vive numa tensão constante entre a sua tendência mais social-democrata e outra mais libertária e contestatária”, fundamenta.
Do outro lado da barricada, os eleitores sublinham a ética e a moderação que veem à direita e, – dois anos antes de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa terem dado forma à “geringonça” – carregam nas tintas do “radicalismo” e da “incapacidade de governar da esquerda”.

Seja como for, e apesar da “intensidade da crise económica”, Portugal continua a quebrar a regra da “radicalização política” e do nacionalismo que tem florescido um pouco por toda a Europa. E nem mesmo ao populismo o país tem cedido. Como exemplo é dada a “expressiva votação” de António Marinho Pinto (como candidato do MPT) nas europeias de 2014, que acabou por não ter repercussão nas urnas quando o ex-bastonário da Ordem dos Advogados avançou como líder do PDR.

Não obstante essa moderação, os autores constatam que no período que mediou as duas sondagens a população guinou à direita. Ou define-se de forma mais desempoeirada como tal. “Embora as diferenças encontradas (…) não sejam muito relevantes, os resultados mostram uma tendência no sentido do reforço das posições do centro e mesmo de um ligeiro posicionamento mais à direita”, escrevem Reto e Sá. Uma tendência, reforçam, superior à que se verificou nos nossos parceiros europeus. “É um fenómeno que também se viu no Eurobarómetro [entre 2002 e 2012] muito provocado pela crise económico- -financeira. As pessoas acomodaram-se a essa crise, encararam-na como uma inevitabilidade”, justifica o reitor do ISCTE.

Mesmo em crescendo e com a balança a pender para o seu lado, os que se dizem de direita mantêm bem vivos dois estigmas: o do Estado Novo e o do neoliberalismo.

“A direita em Portugal parece ter alguma “vergonha” de assumir os valores tradicionais do seu campo, ao contrário do que acontece na Europa e nos EUA, o que poderá explicar a inexistência de partidos de extrema-direita relevantes”, realçam os autores, aludindo, a esse propósito, ao “fim tardio da ditadura”.

Já quanto ao segundo rótulo – de que PSD e CDS fogem amiúde -, o estudo confirma os discursos de Passos, Portas e companhia: “A direita portuguesa parece rejeitar, mais em 2013 do que em 1999, o modelo neoliberal.” Luís Reto adensa o raciocínio: “Está impregnado na cultura portuguesa. Valores como o exibicionismo da riqueza, a desigualdade social, (…) associados ao neoliberalismo, não são bem aceites. As pessoas podem ser diferentes mas não muito desiguais.”

Daí que também denuncie uma “tensão” crónica no PSD: entre a social-democracia clássica e a corrente neoliberal, “muito personificada pelo Governo de Passos Coelho, que quer agora recentrar o discurso”.

Em Portugal, aponta ainda, “a cultura é muito diferente da que existe nos EUA”, onde “a afirmação e exibição do sucesso” não é tão criticada. “O caso extremo, o paradigma dessa cultura é Donald Trump”, lembra, antes de regressar, por oposição, ao amplo consenso nacional sobre a instituição de um salário máximo nacional.

No fundo, no nosso país é pelo centro que a maioria dos eleitores gosta de ser seduzida. E é ao centro que os partidos e presidentes – que o diga Marcelo – ganham eleições.

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