399 crianças não têm uma família que as adote

399 crianças não têm uma família que as adote

Em dezembro de 2015, 399 menores aguardavam por uma família adotiva, ou seja, até então ninguém os quis, apesar de haver 1884 candidatos a pais que esperavam pela proposta de uma criança. O desencontro, explica a Segurança Social, deve-se ao facto de “a maioria das crianças em situação de adotabilidade ter mais de seis anos, enquanto a maioria dos candidatos as quer até aos seis”. Especialistas afirmam que urge definir “de forma mais célere” se uma criança vai ou não para adoção.

“A definição e concretização do Projeto de Vida de adoção tem que ser mais rápida, porque, se se decide que alguém vai para adoção muito tarde, as probabilidades de essa pessoa vir a ser adotada vão diminuir”, avança Cristina Silva, fundadora e membro da Direção da Associação Bem Me Queres. A dirigente acrescenta que “é preciso que haja maior coordenação entre tribunais, comissões de proteção e Segurança Social”.

De acordo com o último Relatório Casa – o próximo poderá ser publicado esta semana –, a maioria das crianças teve medidas de acompanhamento ainda com a família de origem, antes do acolhimento. Ou seja, há toda uma preocupação em recuperar o agregado de origem. Concretamente, dos 2433 jovens que cessaram o acolhimento no final de 2014 (entre os 8470 que estavam institucionalizados), 89,6% concretizaram o respetivo projeto regressando às famílias.

Um longo caminho a percorrer

Das crianças institucionalizadas que acabam a ser candidatas à adoção, nem todas são adotadas. Ao longo dos anos, e em cada ano, apenas entre 26% e 28% são integradas em famílias adotivas. Não é novo. Por exemplo, no final de 2014, de acordo com o último Relatório Casa, das 1267 em acolhimento em condições de adotabilidade, apenas 347 foram integradas em família adotante (27,3%). Nesse ano, foram decretadas 353 adoções, avançou a Segurança Social.

Resumindo, desde que se decide que um menor tem condições para ser adotado até a medida ser decretada, e até ser integrado num agregado, pode percorrer-se um longo caminho.

Entre outras razões, “não podemos esquecer que há sempre dois tempos, o dos candidatos a pais e o da criança”, alerta Cristina Silva. “Os primeiros vão esperar de acordo com as características que estão disponíveis a aceitar; as segundas consoante estiverem ou não de acordo com as características mais pedidas”, continua.

Sem rodeios, fonte do Ministério do Trabalho e Segurança Social reconhece que, além da idade, “a situação de saúde da criança, no caso de deficiência, ou a pertença a uma fratria (ter irmãos) são fatores de atraso na concretização da adoção”.

Ter deficiência, ou irmãos, são fatores de exclusão para a maioria dos candidatos

Cristina Silva defende que uma das soluções seria desenvolver, dentro do território, “uma rede de procura ativa de candidatos”. “Há famílias com filhos biológicos que não pensam em adotar, mas que se fossem confrontados com o desafio, diriam que sim. Poderia, sim, ser uma solução, por exemplo, para as crianças mais velhas”, conclui.

Recorde-se que, segundo a lei, o adotando deve ter menos de 15 anos à data do requerimento da adoção.

PORTO

Fernanda Santos, 53 anos, sai completamente do padrão. Há mais de uma década, ela e o marido decidiram adotar dois irmãos, um deles com mais de seis anos. Diz que sempre entendeu “a riqueza de ter irmãos” e que “a idade nunca foi fator de exclusão”. Admite que não foi fácil – os primeiros meses com Filipe, que tinha sete anos, e Filipa, com quatro, foram até “muito difíceis”. Mas, feito o balanço, tudo acabou a ser infinitamente compensador”.

Inicialmente, foi complicado convencer o marido. Fernanda acredita que este é, muitas vezes, “um período de grande solidão para uma mulher”. Avança, porém, que, após reflexão, “ninguém resiste a uma criança” e que teve no marido o seu grande aliado.

Aos 35 anos, o casal entregou a candidatura e, como os seus critérios fugiam do normal, no espaço de um ano tinha os dois irmãos em casa. “Cada um sabe das suas limitações, cada um é que sabe se pode adotar um ou dois, com esta ou aquela idade. É normal que as pessoas queiram crianças pequeninas, sou incapaz de julgar. Mas eu senti que era capaz. A minha única limitação seria uma criança com deficiência profunda, e por razões profissionais”, assevera Fernanda.

Os primeiros tempos foram duros. Filipe “arrastava-se pelo chão”, fazia birras gigantes, dizia “tu não és minha mãe”, “testava até aos limites”. “Havia alturas em que eu me passava e cheguei a dar-lhe umas sapatadas. Aí, o pai intervinha e punha água na fervura. No dia seguinte, eu pedia desculpa, dizia que era humana”. Pouco a pouco, Filipe mudou o comportamento e hoje “está muito bem, autónomo, feliz”. Atualmente, com 24 anos, “trabalha com carros. Como o pai é engenheiro mecânico, todos os dias falam e só sobre carros”. Filipa sempre foi “mais sossegada e dócil”. Está agora com 21 anos, a acabar o curso. “São pessoas equilibradas e muito ricas”.

LISBOA

Ana Kotowicz, 41 anos, e o marido decidiram adotar e viram a sua candidatura aprovada em dezembro de 2014. Estão na fase de aguardar, sendo que fizeram a última formação da Santa Casa de Misericórdia em dezembro passado. Esperam “em paz”, sabendo que este tempo “é perfeitamente normal” e “tem que ver com o perfil pedido”, explica Ana. Podem ficar com dois irmãos, o mais velho até seis, o mais novo até cinco, de qualquer raça, etnia ou sexo.

A decisão chegou porque o casal, junto há 14 anos, ficou a saber que tinha “uma incompatibilidade genética”, ou seja, “nenhum tem qualquer problema de fertilidade” mas juntos não podem ter filhos biológicos. Ainda tentaram uma inseminação artificial, mas ficaram por aí. “No fundo, sempre soube que a solução seria adotar”, adianta Ana. Sem qualquer problema, drama ou tristeza, assim mesmo o afirma, Kotowicz falou em adotar ao marido, que “não teve reação automática A ideia foi crescendo, até que deram o passo. “Toda a família aceitou muito bem”. Passaram por todas as fases, desde os primeiros seis meses até à aprovação da candidatura, com sessões de formação antes e depois.

Ana é jornalista, gosta de escrever e, a dada altura, entendeu que gostaria de desenvolver um texto para ler aos seus meninos, quando eles chegarem, até para “introduzir, naturalmente, o facto de eles serem adotados”.

Um dia, depois da última formação, em casa, “e ainda de pijama”, mas já em frente ao computador, saíram as primeiras frases. A história chegou a livro. Quem a edita é a Livros Horizonte, e conta o desejo de uma rainha e de um rei que eram muito felizes, mas não tinham meninos. Pediram ajuda às fadas madrinhas e aquelas ajudaram, a eles e, sobretudo, aos pequenotes que precisavam de pais. Ana e o marido aguardam há ano e meio os seus pequenotes.

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